Mente Reativa e Mente Criativa:dois modos de funcionamento de nossa mente

Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre a visão budista dos dois modos de funcionamento da nossa mente: a mente reativa, condicionada, e o modo criativo, que permite novos caminhos para se libertar do sofrimento.



Vamos falar um pouco da visão budista, a visão que teve o Buda acerca da existência. Basicamente o Buda compreendeu que tudo que existe, que todos os fenômenos estão em um processo constante de mudança. Tudo é um processo de mudança. Tudo surge devido a condições, seja uma flor, seja o mundo, uma casa ou um pensamento. Tudo surge devido a condições e tudo depende de condições. Quando existem as condições, surgem os fenômenos. E quando não existem estas condições, eles não surgem.


Mas também o Buda viu que dentro deste processo de mudança, dentro deste processo de condicionamentos, onde os fenômenos surgem em dependência de condições, e por sua vez formam as condições para que surjam outras coisas, havia dois tipos de condicionamento, ou dois modos de condicionamento. No universo e na vida de um ser humano.



Existe o que podemos chamar de modo cíclico de condicionamento, ou o modo reativo, e este é um tipo de mudança que simplesmente ocorre dentro de um mesmo ciclo, uma mudança que nunca sai de certos limites. Embora haja uma mudança constante, é como se ela estivesse presa dentro de uma roda, dentro de um círculo. Na vida de um ser humano, por exemplo, esse tipo de mudança se encontra quando vamos da tristeza para a felicidade, voltamos para a tristeza e depois para a felicidade, e sempre se compreende dentro de um limite circular: vamos dando voltas através de certos estados de ser, de ânimo, estados mentais, por toda a vida e, para o budismo, por muitas vidas. Sempre entre o prazer e a dor, ganhar e perder. Este se chama o modo cíclico de mudança, e de condicionamento. Estamos mudando o tempo todo, mas sempre dentro de um mesmo ciclo. Esse modo cíclico de mudança é representado pictoricamente, na tradição budista, pela imagem da Roda da Vida.


Mas existe para o budismo uma outra maneira de condicionamento, de mudança, e esta podemos chamar de criativa. E em vez de ser como um círculo, podemos dizer que é mais como uma espiral, que vai aumentando. Este tipo de condicionamento é gradual, mas progressivo, entre fatores que vão se incrementando. É o modo em espiral de mudança. Então passamos da tristeza ao bem-estar, do bem-estar ao contentamento, do contentamento à felicidade, da felicidade à alegria, da alegria ao deleite. Então os fatores se vão incrementando. É representado pelo símbolo do Caminho.


A vida humana, nossa vida, reflete estes dois tipos de condicionamento. Podemos verificar estas duas formas de mudança, estas duas maneiras de ser em nossa própria vida. Podemos então falar do ser humano cíclico e reativo, e do ser humano criativo. Sem nos fixar. Não quero dizer que um ser humano é de modo permanente reativo. Podemos falar da mente reativa e da mente criativa. E podemos ter, em qualquer momento, uma mente reativa ou uma mente criativa.


Características

A mente reativa é quando repetimos padrões habituais. É como se no decorrer dos anos fôssemos desenvolvendo um sulco, como a água que cai na montanha sempre no mesmo lugar e vai criando um mesmo caminho- nossa mente, nosso coração é um pouco assim. Desenvolvemos formas de ser, maneiras de ser, e é como se tivéssemos criado sulcos em nossa mente. Nossas mentes sempre vão pelos mesmos sulcos, e repetimos hábitos e padrões.


O reativo é como viver de forma mecânica, digamos assim. Respondendo de forma passiva ou previsível à vida. Algo acontece conosco e respondemos sempre da mesma maneira. Alguém nos diz algo e sempre respondemos da mesma maneira. Encontramo-nos em um certo contexto e respondemos sempre do mesmo modo.


A mente reativa é a que usamos a maior parte do tempo. Melhor dizendo, é a mente reativa que está nos usando. Estamos na maior parte do tempo escravos. Suas características principais: é distraída, desatenta. Obedece a padrões repetitivos, é condicionada por seus objetos, que vêm do mundo sensorial ou da mente. Portanto, não é livre. É uma mente mecânica. Está adormecida.


Para o budismo, é com a consciência de que não estamos conscientes que a vida espiritual começa. Quando nos tornamos conscientes de como estamos condicionados, como nossas mentes são reativas, como somos fantoches o tempo todo acionado por cordas invisíveis, como não somos livres, não originamos nada de maneira livre, espontânea, criativa. Quando nos tornamos conscientes de nossa própria inconsciência e distração, então este é o início de nossa vida espiritual. Segundo o mestre budista Sangharakshita, não só a vida espiritual, mas a vida humana que começa. Pois nossa vida não é humana a menos que tenhamos ao menos um brotinho de consciência, que é o que, na verdade, nos diferencia dos animais.


A Roda da Vida representa em forma pictórica o mecanismo de funcionamento de nossa mente reativa. Para que comecemos a viver de forma criativa, temos que compreender bem a forma reativa de viver. Começamos a vê-la pelo que é, e dentro de nós. E quando a vemos e compreendemos, começamos a poder sair dela. O primeiro passo é desenvolver um pouco de clareza e compreensão acerca do que está acontecendo.


O modo criativo implica criar novas maneiras de ser e de responder à vida. O criativo é quando damos surgimento a algo novo. Respondemos de uma forma mais espontânea. Espontânea no sentido de nova, fresca, criativa.


Viver, seja de forma reativa, seja de forma criativa é uma escolha que fazemos, é uma possibilidade que existe em cada momento de nossa vida. Agora mesmo temos esta possibilidade. Todo o tempo temos esta possibilidade.



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Texto traduzido e adaptado de uma palestra budista num retiro de meditação no Centro Mandala, Itatiba, em 2000.

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