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O que preciso transformar em mim para contribuir mais para o mundo que quero viver?

O que preciso transformar em mim para contribuir mais para o mundo que quero viver?

Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre essa frase e refletir como podemos começar olhar de maneira mindful para nossa realidade, conhecer nossas buscas e contribuir para a construção do mundo que queremos viver. Nos tempos em que vivemos, é impossível não refletir sobre as mudanças que o mundo está passando. Nisso, reside uma grande oportunidade de refletir sobre o mundo que queremos viver, e o que gosto muito nessa frase é o quanto temos mais liberdade, autonomia e ao mesmo tempo responsabilidade para construir o mundo que queremos viver. Somos agentes, protagonistas, e não meros expectadores de todo o movimento da vida. Podemos fazer essa reflexão não apenas para o mundo externo, mas especialmente para o “mundo interno”, se é que eles são tão separados assim. E as primeiras perguntas que essa frase nos convida é: Qual minha visão de mundo? Com qual filtro eu escolho interagir com esses mundos, ou ainda, com qual “lente de consciência” eu escolho observar todo esse movimento desses mundos? Quanto estamos de fato conscientes disso, e trazendo essa intenção dia após dia? Olhar para nós mesmos, e identificar o que podemos transformar em nós para construir o mundo que queremos viver, requer uma presença muito mindful de nossa parte. Precisamos estar conscientes, momento a momento, de nossas experiências, incluindo nossos pensamentos, nossas sensações, emoções e mesmo dos nossos comportamentos. Requer revisitar nossas intenções, monitorando e questionando “como queremos atuar no mundo”. Requer uma postura interna de aceitação, abertura, gentileza, generosidade, paciência, confiança... E, se em nossa visão, o mundo que queremos viver inclui um mundo com menos sofrimento, envolve ainda a compaixão. Uma sensibilidade para o sofrimento que nós seres humanos compartilhamos, e um comprometimento de nossa parte em ter ações para aliviar esse sofrimento. Então, veja se é possível deixar essa frase simplesmente repousar em sua consciência, e se abrir para o que quer que surja. Quem sabe isso possa te dar uma pista do que te faz sentido? Afinal, muitos de nós está em constante busca de seus propósitos... ter uma vida com mais significado e olhar para o mundo que queremos viver está intimamente conectado com isso. Quando eu digo "dar uma pista" é porque muitas vezes é isso mesmo! Um senso, um indício, um "algo" que aponta para uma possível direção... muitas vezes não é algo claro e concreto. Se constrói (e reconstrói) durante o percurso, como parte do percurso, e não como uma meta a ser alcançada. Se nos permitirmos tomar consciência disso, podemos reconhecer esse "algo meio nebuloso" ali presente e então escolher qual passo dar a seguir, quem sabe até mesmo testar se é esse o caminho que queremos seguir. Ao mesmo tempo, atuar para construir o mundo que queremos viver está muito ligado a viver uma vida com maior coerência. Eu li uma vez, em algum lugar, que viver de maneira coerente com nossos princípios, valores e, acima de tudo, propósitos, promove uma verdadeira sensação de serenidade, paz e tranquilidade, especialmente em dias extremamente turbulentos. E de fato, tenho percebido isso tanto pessoalmente quanto profissionalmente, e assim a palavra “felicidade” começou a ganhar um novo significado. Construção de justiça e igualdade? Paz? Reforma íntima? Conquistar sonhos inclusive materiais? Desenvolvimento da humanidade em si? Causas sociais ou ambientais? Proteção de animais? Alguma dessas coisas em um contexto micro, um contexto macro? As possibilidades são infinitas, mas sempre começam dentro de nós. Em um alinhamento do interno com o que externamos, sejam por palavras ou ações. Então, não está e nem nunca esteve na ação em si. Mas na sua realidade, e na sua coerência de ações diante disso. Curiosamente, o mundo que eu quero viver passa pela minha realidade, assim como o mundo que você quer viver passa pela sua realidade. Por esse motivo, não é algo fixo e imutável, mas bastante dinâmico. Sequer precisa ser uma coisa só. E eu acredito, de verdade, que existe espaço para todos eles existirem, numa forma muito bonita de realmente respeitar e acolher – e, por que não, amar? - a diversidade. Se você me perguntar, esse é o mundo que quero viver. Uma coisa que me surpreendeu bastante nessa jornada é o quanto, na verdade, começa com escolhas / ações muito simples! Decisões aparentemente irrelevantes, mas que funcionam como grandes adubos para “floresceres” maiores e mais profundos. Entretanto, não é muito fácil quebrarmos paradigmas pessoais e até mesmo culturais para nos permitir isso! Envolve inclusive algumas perdas e despedidas. Acho que podemos levar uma vida inteira para começar a compreender e começar a caminhar nessa direção. Mas uma coisa eu percebi... uma vez que abrimos essa porta, conhecemos e iniciamos essa jornada, dificilmente conseguimos voltar atrás. Por hora, por esse instante, que tal simplesmente repousar com essa pergunta e plantar essa sementinha de reflexão em seu coração?

Há gentileza na história que conta sobre sua vida?

Há gentileza na história que conta sobre sua vida?

Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre a frase de Byron Katie: "A realidade é sempre mais gentil do que a história que contamos sobre ela", que faz refletir bastante sobre como interpretamos nosso momento presente. Um dos questionamentos que me faço é: o que tem de tão desafiador no momento presente que faz com que o tempo todo a gente fuja para o passado e o futuro? Claro, existem uma série de explicações como, por exemplo, realmente ser importante planejar nossa vida e refletir onde queremos chegar, e para isso revisitamos o que já vivemos até aqui. Existe um potencial criativo no processo de divagação livre da mente, surgimento de ideias, de insights... Existe um processo automático, de condicionamento mental, que costuma “visitar” esses lugares comuns normalmente de passado e futuro, que por uma série de motivos se fortalecem e ficam mais e mais automáticos – e, nesse sentido, desenvolver um novo condicionamento de maior presença e consciência com o momento presente requer um esforço afetuoso de nossa parte. E OK, não tem nada errado com essa forma de ser. A reflexão que convido aqui não é sobre acho ser certo ou errado, mas de uma abertura sincera para identificar qual impacto essa “ausência para o momento presente” traz para nossas vidas. As pesquisas mais do que mostram a relação com sintomas de ansiedade, depressão e estresse, além da associação entre estar no momento presente com felicidade, conexão, bem-estar, etc. Uma das coisas que nos afasta desse momento presente é justamente o filtro com que olhamos para ele. Até por uma questão evolutiva e de sobrevivência, nossa mente pode ser muito negativa, alarmista, até mesmo cruel algumas vezes. E então, o que pensamos sobre o momento presente, como interpretamos o que vivemos, acaba sendo enviesado por esse filtro. Nos colamos a isso, nos identificamos tanto com nossa interpretação da realidade, que mal damos o benefício da dúvida. E sentimos, tanto no campo emocional quanto no nosso corpo. Se pudermos realmente olhar para o momento presente de maneira genuína, aberta e curiosa, de maneira mindful, poderemos ver como de fato ele é mais gentil do que parece. E acredite, isso se dá mesmo quando o que está no momento presente já é difícil o bastante, pois nesses momentos nossa mente consegue ser ainda mais enviesada. Aprender a “virar a chave da mente”, ou seja, aprender a regular o nosso foco de atenção, nos permite escolhas conscientes e até mesmo regular nossas emoções. Para isso, é importante observar a intenção que sustenta essa escolha e não ficar vivendo os condicionamentos mentais automaticamente. Escolher quando “viajar para a praia” no meio de uma reunião difícil ou quando definir a necessidade de estar focado e presente justamente por ser uma reunião difícil, por exemplo. Escolher quando quer deixar essa mente livre e fluída visitar os lugares que quiser, reconhecer quando isso passa a impactar negativamente (talvez porque nesse caso estar no momento presente passa a ser chato e frustrante, já que não estamos de fato lá) e quando quer sincronizar sua atenção plena com o que está fazendo. Conectar com seu corpo, se abrir para suas emoções e refinar sua percepção sobre esses aspectos dão dicas fundamentais de quando devemos virar essa chave, e até mesmo de como podemos virar essa chave. Não tem receita de bolo, não tem mágica, é o que faz sentido para cada um. E o que acho mais interessante, é legitimar a real sabedoria de cada um.

Mente Reativa e Mente Criativa:dois modos de funcionamento de nossa mente

Mente Reativa e Mente Criativa:dois modos de funcionamento de nossa mente

Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre a visão budista dos dois modos de funcionamento da nossa mente: a mente reativa, condicionada, e o modo criativo, que permite novos caminhos para se libertar do sofrimento. Vamos falar um pouco da visão budista, a visão que teve o Buda acerca da existência. Basicamente o Buda compreendeu que tudo que existe, que todos os fenômenos estão em um processo constante de mudança. Tudo é um processo de mudança. Tudo surge devido a condições, seja uma flor, seja o mundo, uma casa ou um pensamento. Tudo surge devido a condições e tudo depende de condições. Quando existem as condições, surgem os fenômenos. E quando não existem estas condições, eles não surgem. Mas também o Buda viu que dentro deste processo de mudança, dentro deste processo de condicionamentos, onde os fenômenos surgem em dependência de condições, e por sua vez formam as condições para que surjam outras coisas, havia dois tipos de condicionamento, ou dois modos de condicionamento. No universo e na vida de um ser humano. Existe o que podemos chamar de modo cíclico de condicionamento, ou o modo reativo, e este é um tipo de mudança que simplesmente ocorre dentro de um mesmo ciclo, uma mudança que nunca sai de certos limites. Embora haja uma mudança constante, é como se ela estivesse presa dentro de uma roda, dentro de um círculo. Na vida de um ser humano, por exemplo, esse tipo de mudança se encontra quando vamos da tristeza para a felicidade, voltamos para a tristeza e depois para a felicidade, e sempre se compreende dentro de um limite circular: vamos dando voltas através de certos estados de ser, de ânimo, estados mentais, por toda a vida e, para o budismo, por muitas vidas. Sempre entre o prazer e a dor, ganhar e perder. Este se chama o modo cíclico de mudança, e de condicionamento. Estamos mudando o tempo todo, mas sempre dentro de um mesmo ciclo. Esse modo cíclico de mudança é representado pictoricamente, na tradição budista, pela imagem da Roda da Vida. Mas existe para o budismo uma outra maneira de condicionamento, de mudança, e esta podemos chamar de criativa. E em vez de ser como um círculo, podemos dizer que é mais como uma espiral, que vai aumentando. Este tipo de condicionamento é gradual, mas progressivo, entre fatores que vão se incrementando. É o modo em espiral de mudança. Então passamos da tristeza ao bem-estar, do bem-estar ao contentamento, do contentamento à felicidade, da felicidade à alegria, da alegria ao deleite. Então os fatores se vão incrementando. É representado pelo símbolo do Caminho. A vida humana, nossa vida, reflete estes dois tipos de condicionamento. Podemos verificar estas duas formas de mudança, estas duas maneiras de ser em nossa própria vida. Podemos então falar do ser humano cíclico e reativo, e do ser humano criativo. Sem nos fixar. Não quero dizer que um ser humano é de modo permanente reativo. Podemos falar da mente reativa e da mente criativa. E podemos ter, em qualquer momento, uma mente reativa ou uma mente criativa. Características A mente reativa é quando repetimos padrões habituais. É como se no decorrer dos anos fôssemos desenvolvendo um sulco, como a água que cai na montanha sempre no mesmo lugar e vai criando um mesmo caminho- nossa mente, nosso coração é um pouco assim. Desenvolvemos formas de ser, maneiras de ser, e é como se tivéssemos criado sulcos em nossa mente. Nossas mentes sempre vão pelos mesmos sulcos, e repetimos hábitos e padrões. O reativo é como viver de forma mecânica, digamos assim. Respondendo de forma passiva ou previsível à vida. Algo acontece conosco e respondemos sempre da mesma maneira. Alguém nos diz algo e sempre respondemos da mesma maneira. Encontramo-nos em um certo contexto e respondemos sempre do mesmo modo. A mente reativa é a que usamos a maior parte do tempo. Melhor dizendo, é a mente reativa que está nos usando. Estamos na maior parte do tempo escravos. Suas características principais: é distraída, desatenta. Obedece a padrões repetitivos, é condicionada por seus objetos, que vêm do mundo sensorial ou da mente. Portanto, não é livre. É uma mente mecânica. Está adormecida. Para o budismo, é com a consciência de que não estamos conscientes que a vida espiritual começa. Quando nos tornamos conscientes de como estamos condicionados, como nossas mentes são reativas, como somos fantoches o tempo todo acionado por cordas invisíveis, como não somos livres, não originamos nada de maneira livre, espontânea, criativa. Quando nos tornamos conscientes de nossa própria inconsciência e distração, então este é o início de nossa vida espiritual. Segundo o mestre budista Sangharakshita, não só a vida espiritual, mas a vida humana que começa. Pois nossa vida não é humana a menos que tenhamos ao menos um brotinho de consciência, que é o que, na verdade, nos diferencia dos animais. A Roda da Vida representa em forma pictórica o mecanismo de funcionamento de nossa mente reativa. Para que comecemos a viver de forma criativa, temos que compreender bem a forma reativa de viver. Começamos a vê-la pelo que é, e dentro de nós. E quando a vemos e compreendemos, começamos a poder sair dela. O primeiro passo é desenvolver um pouco de clareza e compreensão acerca do que está acontecendo. O modo criativo implica criar novas maneiras de ser e de responder à vida. O criativo é quando damos surgimento a algo novo. Respondemos de uma forma mais espontânea. Espontânea no sentido de nova, fresca, criativa. Viver, seja de forma reativa, seja de forma criativa é uma escolha que fazemos, é uma possibilidade que existe em cada momento de nossa vida. Agora mesmo temos esta possibilidade. Todo o tempo temos esta possibilidade. Esse e outros temas também estarão em nosso curso Mente Reativa e Mente Criativa, clique aqui e saiba mais! Texto traduzido e adaptado de uma palestra budista num retiro de meditação no Centro Mandala, Itatiba, em 2000.

Vulnerabilidade, compaixão e mindfulness

Vulnerabilidade, compaixão e mindfulness

Você já se sentiu vulnerável ao ser exposto aos diferentes sofrimentos do mundo? Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre essa vulnerabilidade e como a compaixão aliada à uma consciência plena podem ajudar a seguir a nossa busca de um caminho mais desperto. Na medida em que praticamos a meditação e começamos a compreender que nós mesmos e o mundo são processos interativos, que se influenciam mutuamente, é natural também emergir a necessidade de desenvolver compaixão. Assim que começamos a nos libertar do desejo autocentrado e nos abrimos para as experiências como elas são, passamos a vivenciar também a vulnerabilidade de estarmos expostos ao sofrimento e às angústias do mundo, e isso pode ser um grande momento de virada! Essa vulnerabilidade se apresenta de muitas formas, e pode ser sentida em diferentes graus. Quando isso acontece, é muito comum as pessoas me relatarem que se sentiram sobrecarregadas, angustiadas, inseguras e com medo. Mas também me relataram sentir amor, afeto e carinho, e se permitirem, encontram aí um lugar seguro para fazer germinar uma linda semente. Ao compreender isso, o que escolhe fazer em seguida? Você pode dar um passo atrás e voltar para a “zona de conforto da ignorância”, certo? Mas parece que algo dentro de você simplesmente não consegue mais fazer isso. Uma vez que cruza essa porta é difícil voltar atrás, e algo dentro de você te diz para continuar seguindo em frente, simplesmente porque sente que faz sentido ser assim. E tenha certeza: este é um caminho muito bonito de transformação e cura. Com a mente clara e um coração gentil, podemos encontrar a segurança de trilhar esse caminho muitas vezes desconhecido. Não é à toa que a compaixão não é desprovida de coragem e discernimento! É necessário coragem para desenvolver a consciência e responder ao sofrimento de si e dos outros, assim como discernimento para conhecer nossos limites. Mas querer se sentir de maneira compassiva não é o bastante. É preciso também estar atento à toda enxurrada de pensamentos e emoções que nos invade e que podem minar nossa intenção determinada de cultivar aquilo que nos faz sentido. Um coração compassivo também sente raiva, frustração, medo e angústia. Mas se estamos atentos, podemos compreender, acolher e responder com equanimidade e gentileza, desenvolvendo nossa própria sabedoria de manejá-los sem se identificar ou agir com base neles. Fundamentar nosso cultivo da compaixão em nossa intenção é o que, a meu ver, torna esse caminho verdadeiramente trilhável, em uma real jornada para a vida inteira. Por isso, queria fechar compartilhando um trechinho maravilhoso do autor que representa a maior clareza que tive quando comecei a despertar para a necessidade de mergulhar na compaixão, espero que goste: “A compaixão é o corpo e a alma do despertar. (...) É vislumbrada naqueles momentos em que a barreira do “eu” é levantada e em que a existência individual se rende ao bem-estar da existência como um todo. Torna-se cristalinamente claro que não podemos obter o despertar para nós mesmos: podemos apenas participar do despertar da vida.” (Stephen Batchelor – Budismo sem Crenças – Editora Palas Athena, 2005, p. 118 e 119). Esse e outros temas também estarão em nosso curso Mente Reativa e Mente Criativa, clique aqui e saiba mais!

Sobre a Vacuidade e o "Interser"

Sobre a Vacuidade e o "Interser"

Você conhece o conceito de vacuidade e como ele se relaciona com a liberdade do sofrimento? Nesse post, vamos conversar um pouquinho sobre o conceito de vacuidade, a relação com o "interser" trazido pelo monge Thich Nhat Hahn e como podemos começar a nos relacionar de uma nova forma com o "eu". Separamos alguns trechos bem especiais de dois livros sobre esse tema. Algumas vezes, a vacuidade pode ser erroneamente associada unicamente com a palavra vazio, e ser interpretada como o vazio e ausência de coisas. Mas isso está longe de representar seu real significado. A vacuidade é a verdadeira natureza dos fenômenos incluindo os da mente, com sua capacidade ilimitada de experimentar pensamentos, emoções e sensações. Segundo o monge Thich Nhat Hanh, a vacuidade significa estar repleto de tudo, mas vazio de uma existência isolada. Independentemente de estar vazio e cheio, é preciso antes de mais nada estar, ser presente. É o senso de abertura que experimentamos ao repousar nossas mentes na verdadeira natureza dos fenômenos. Passamos então a compreender um senso de possibilidade, de que tudo pode surgir, modificar e desaparecer. E compreendemos isso de uma forma que vai além da percepção dos sentidos e da nossa capacidade de conceituar, de traduzir em linguagem. Segundo um trecho do livro de Stephen Batchelor, Budismo sem Crença, a ‘consciência de si é o fato mais óbvio e central de minha vida e, ao mesmo tempo, o mais impreciso. Se tento encontrar o meu "eu" na meditação, descubro que é como correr atrás da minha própria sombra. Tento alcançá-lo mas não encontro nada. Então ele reaparece em outro lugar. Vejo-o de relance com o canto do olho de minha mente, viro-me em sua direção, e ele já se foi. Cada vez que penso tê-lo capturado, ele se torna alguma outra coisa: uma sensação corporal, um estado de ânimo, uma percepção, um impulso ou simplesmente a própria consciência. O "eu" pode não ser uma coisa, mas ele também não é nada. Ele simplesmente não pode ser fixado, encontrado. Sou quem sou não por causa de um "eu" essencial que se oculta no âmago de meu ser, mas por causa da matriz de condições sem precedentes e não reproduzível que me formou. Quanto mais exploro o mistério de quem eu sou (ou do que uma coisa é), mais eu apenas continuo seguindo. Esse processo não tem fim, é somente uma trajetória infinita que evita cair nos extremos do ser e do não-ser. Essa trajetória é não apenas o centro, que é livre dessa dualidade, mas o próprio caminho central.’ (trecho extraído do livro “Budismo sem Crenças” – Stephen Batchelor – Palas Athena, p.106) Batchelor discute ainda o quanto ficamos tentando nos agarrar a uma ideia fixa e imutável de “eu” e do “mundo”, e que, quanto mais precioso esse conceito é para nós, mais tentamos protegê-lo de ataques. Dessa maneira, desse lugar, condicionamos o nosso sofrimento. Nesse sentido, tem mais um trecho do livro dele que vale a pena ler: “Ao olhar para as coisas como absolutamente separadas e como desejáveis ou temíveis em si mesmas, estabelecemos para nós próprios a tarefa de possuir uma coisa que nunca poderemos ter, ou de erradicar algo que, para começar, nunca existiu. Quando percebemos como as coisas emergem de um fluxo ininterrupto de condições e nele se desvanecem, começamos a ser um pouco mais livres. Reconhecemos como as coisas são relativamente, e não absolutamente, desejáveis ou temíveis. Elas se interconectam e interagem, são reciprocamente contingentes, nenhuma delas é separada do resto”. (trecho extraído do livro “Budismo sem Crenças” – Stephen Batchelor – Palas Athena, p.103 e 104) O mestre Thich Nhat Hanh traz a palavra “interser” para expressar a profunda interconexão com tudo que existe. Interagimos uns com os outros, influenciamos uns aos outros, e nada do que somos é dissociado de ilimitados elementos, seres e da própria vida em si. Assim, ‘estamos repletos de muitas coisa, e ainda assim vazios de uma existência individual. Assim como a flor, dentro de nós existe terra, água, ar, luz do sol e calor. Existe espaço e consciência. Carregamos conosco os nossos antepassados, nossos pais e avós, a educação, os alimentos e a cultura que recebemos. O cosmo inteiro se uniu para criar a maravilhosa manifestação que representamos. Se retiramos todos esses elementos “não nós”, descobriremos que não resta nada “nosso”.’ (trecho extraído do livro “A Arte de Viver” – Thich Nhat Hahn – Harper Collins, p.22). E por mais abstrato que o conceito seja, apenas através de práticas meditativas o conceito começa a fazer mais sentido, então, que tal buscar entender mais sobre esse conceito e aplicar essa sabedoria em sua vida? A partir do dia 28/01, o Plenativamente em parceria com a Medita Nepsis estará com um curso instruído pela Professora Márcia Epstein, chamado Mente Reativa e Mente Criativa: o budismo como método de ação, e tratará de conceitos da psicologia budista e a Roda da Vida de maneira bem dinâmica para você! Confere lá: https://www.plenativamente.com.br/rodadavidabudismo Referências: - “Budismo sem Crenças – a consciência do despertar” – Stephen Batchelor – Palas Athena, 2005. - “A Arte de Viver” – Thich Nhat Hahn – Harper Collins, 2017.

Você conhece o que te deixa ansioso ou ansiosa?

Você conhece o que te deixa ansioso ou ansiosa?

Em seu dia a dia, você sabe de fato o que te traz ansiedade? E por que isso é importante? Nesse post, vamos conversar sobre a importância de estabelecer uma relação de maior consciência e intimidade com sua ansiedade, como um passo fundamental para manejá-la e ter maior calma e equilíbrio em sua vida. Você conhece a ansiedade, certo? Reconhece quando ela está presente, como ela impacta em seu corpo, sua mente, quando ela vem acompanhada de outras emoções como por exemplo medo e angústia. Ou será que só percebe quando ela já está mais intensa, e essas sensações físicas e emocionais são mais fortes? Estabelecer uma relação de intimidade com a ansiedade não é uma jornada muito fácil, mas muito necessária. Para que possamos fazer as pazes com a mente ansiosa precisamos conhecer com clareza como ela é, como ela nos impacta... É importante lembrar também que mesmo sem nem perceber, a alimentamos. Precisamos encarar de frente aquilo que nos prejudica se quisermos fazer qualquer transformação em nossas vidas, mas não precisamos fazer isso com dureza ou seriedade. O que quero te convidar a fazer é começar a desbravar esse universo mas como um grande aventureiro de si mesmo, com abertura, gentileza, coragem e – porque não? – uma pitada de brincadeira? 😊 Nesse post eu quero lançar essa sementinha de reflexão, e de maneira gradual, pouco a pouco ao longo das postagens, vamos avançar nessa conexão com a própria ansiedade. Por hora vamos começar do começo. Vamos dar um passo atrás e reconhecer o que traz ansiedade, onde ela inicia? Quais são os meus gatilhos para sentir ansiedade? Acima de tudo, compreender como nossa mente reage de maneira automática, condicionada, diante desses gatilhos Os gatilhos podem ser internos, como por exemplo estados emocionais e sensações (por exemplo, já se sentir mais agitado naquele dia, ou mesmo cansaço, raiva, tristeza, euforia...) ou externos como por exemplo excesso de trabalho, conflitos com outras pessoas, problemas de saúde, etc. E então, diante desses gatilhos, nossa mente rapidamente interpreta, disparando uma série de pensamentos. E como nossa mente é muito esperta, e procura “as vias mais rápidas e curtas” até mesmo para poupar energia, ela vai seguir alguns padrões, alguns condicionamentos, e repetir esses padrões. E esses pensamentos não vem sozinhos, eles vêm acompanhados de sensações no corpo e de emoções, formando uma tríade importante. Por exemplo, se temos um pensamento como uma lembrança de um momento feliz, podemos sentir a emoção de felicidade ou alegria (até mesmo uma pontinha de saudade), e uma sensação de abertura e calor na região do peito. Se temos um pensamento mais depreciativo podemos sentir um aperto no peito ou pontada no estômago e uma emoção de tristeza. Assim, a mente desenvolve alguns “modus operandi”, aplicando essa mesma forma de ser para tudo. Quanto mais no automático estamos, mais nos deixamos levar e menos percepção desse processo temos. Vamos pensar em alguns exemplos que costumam gerar ansiedade nas pessoas: excesso de trabalho com a famosa frase “não vai dar tempo”; alguma situação relacionada à perigo com a famosa frase “e se acontecer alguma coisa”; alguma situação de exposição e desafio como por exemplo ter que apresentar uma palestra ou fazer uma prova com a famosa frase “e se eu falhar”? Isso tudo traz sensações no corpo e emoções desconfortáveis e, logo entendemos: temos que resolver para fazer passar. E aí qual é a maneira que sabemos fazer isso? Entramos no nosso modo “cientista-detetive”: comprovar que nossa mente está certa, alerta para todas as pistas, todos os indícios para confirmar nossa teoria! E então passamos para o modo “planejador-esperto”: traçar todas as rotas possíveis para resolver esse problema, nos antecipar de todas as possibilidades para não ser pegos pela surpresa. Para então entrar no modo “executivo-faz tudo”: hora de botar nosso plano em ação! Fazer tudo que precisa ser feito para enfim resolver (ou evitar) esse problema. E UFA, aí sim podemos sentir tranquilidade e paz! Mas opa, até a próxima situação, não é mesmo? Às vezes já até começamos a antecipar a próxima situação sem ela nem acontecer direito e já entramos nessa mesma dança. Percebe aqui uma das formas que alimentamos a ansiedade? E essa tríade pensamentos-emoções-sensações vai se retroalimentando, dando ainda mais a percepção de concretude do que estamos vivendo. E assim o desgaste, estresse e sofrimento diante dessa situação vão se intensificando. Desse lugar, reagimos, às vezes até de forma mais impulsiva, numa grande tentativa de fazer passar. Ter alívio. Mesmo quando tudo passa por interpretações da nossa mente! E se pudermos olhar para a situação sem esse véu, com abertura, gentileza e curiosidade para o que de fato está presente? Talvez possamos reconhecer que são pensamentos e interpretações, tendo assim algum distanciamento para observar tudo isso com clareza, e encontrar um lugar mais seguro e confortável para simplesmente nos acolher, oferecendo algum cuidado diante disso que está presente. Aliás, se a gente parar para pensar, essa forma de funcionar da nossa mente na verdade é algo maravilhoso, muito bonito. Nossa mente tem uma capacidade incrível de resolver problemas, de analisar, refletir, planejar... É altamente criativa! Se temos energia elétrica é por conta disso, se temos tantas inovações é por conta disso. E você agora deve estar se perguntando: e isso não é bom? Não é importante que possamos analisar tudo, pensar para resolver os problemas? E a resposta é simples: sim, claro que é. Para as coisas “resolvíveis”. O problema começa quando aplicamos essa fórmula para tudo, incluindo emoções e coisas não resolvíveis. Mais ainda, no caso da ansiedade, para coisas que sequer aconteceram, ou sequer tem chance de acontecer, mas nossa mente entende que sim a acreditamos cegamente nessas interpretações. E se pudéssemos ficar “com a parte boa” do planejamento, das ideias, mas partindo de um lugar de discernimento e tranquilidade, distanciado desses pensamentos, ao invés de partir do medo e da preocupação? E se pudéssemos tomar consciência de que nossa mente está fazendo o que ela aprendeu a fazer, mas não se deixar levar por ela? Ao contrário, olhar para ela com generosidade, curiosidade, gentileza. Simplesmente percebendo como ela impacta em nossas sensações e emoções com abertura? Seria como falar para si mesmo “Ok mente, eu te percebo, vejo que está dando o seu melhor. Mas está tudo bem, nesse momento essa reunião ainda não começou e estamos apenas planejando, nos preparando. Está tudo bem.” Para isso, é fundamental treinar nossa atenção a voltar para o momento presente, de maneira acolhedora, curiosa, aberta e gentil. As práticas de meditação em mindfulness treinamos ajudam muito a desenvolver essa habilidade. É estar presente e perceber o que de fato está acontecendo nesse momento, acolhendo com gentileza. Ao fazer isso, podemos desenvolver o espaço que nosso cérebro precisa e assim, criar o distanciamento necessário dessa reação toda, podemos finalmente dessa forma ter escolhas mais habilidosas! Ao tomar consciência de que a ansiedade ou qualquer outro desconforto surgiu, podemos nos perguntar: o que está aqui de fato comigo? Observe com atenção plena. “Hummmm, percebo ansiedade! Hummm percebo pensamentos de medo! Hummm, percebo preocupação! Hummmm olha que interessante, percebo que ao ter pensamentos de preocupação, meu coração dispara um pouco!” É possível acrescentar um temperinho de gentileza e não julgamentos nessa observação? E a partir desse lugar de consciência, o que preciso fazer para cuidar de mim? Esse, para mim, é o ponto mais importante e bonito. Desenvolver a maestria sobre si mesmo, seus limites e sobre o que pode oferecer de cuidado para si mesmo. Pode parecer impossível tudo isso que estou sugerindo, mas acredite, não é. Vejo isso acontecendo com muita frequência nos atendimentos, e em meu próprio processo. Precisamos nos dar uma chance de tentar algo novo, encontrar “novas rotas mais assertivas de funcionar”. E até se desafiar para testar se isso realmente faz sentido na sua nova experiência! Se queremos mudar algo em nossas vidas, e ter novas formas de ser, também precisamos dar espaço para esse novo surgir, e nos dedicar para isso. Colocar intenção e energia de maneira afetuosa, leve, mas como uma sementinha, que precisa ser cultivada dia após dia.

Como está sua ansiedade nesse momento?

Como está sua ansiedade nesse momento?

Conheça alguns dados muito importantes sobre ansiedade e como podemos começar a ter maior calma e tranquilidade em nossas vidas. Apresentamos também a Semana de Redução da Ansiedade, oferecendo cuidado e ferramentas para aprender a lidar com esse sintoma. Você sabia que o Brasil é recordista mundial em ansiedade? Isso é o que aponta o relatório mais recente da Organização Mundial de Saúde, de 2017. Enquanto a prevalência global de transtorno de ansiedade é de 3,6%, no Brasil essa taxa sobe para 9,3% - quase o triplo, sendo maior entre mulheres do que homens em uma proporção de cerca de 2:1 na região das Américas. Um outro dado muito importante é o impacto que a ansiedade tem para a saúde: os transtornos de ansiedade são classificados como o sexto maior contribuinte para a perda de saúde não fatal em todo o mundo. Claro, isso levanta algumas perguntas importantes como: por que no Brasil? O que está acontecendo com nossa população, não só brasileira como também mundial? Que escolhas temos feito em nossas vidas? Eu não acho que saibamos as reposta para muitas dessas perguntas, mas o que mais me norteia nesse momento ao ver esses dados é: como podemos oferecer cuidado diante disso? Ainda mais agora nessa pandemia. A ansiedade está relacionada com medo e preocupações especialmente com o futuro, acompanhada de uma série de reações fisiológicas como aceleração dos batimentos cardíacos, sudorese e tremores. Quando esses sintomas são vivenciados com uma certa frequência e intensidade, podem desencadear os transtornos ansiosos (como por exemplo transtorno de ansiedade generalizada, pânico, fobia social, etc.) e se tornar crônico. E agora, com a pandemia, vivemos uma condição de muita insegurança, preocupações e medo. Seja com saúde, segurança, situação econômica, família... Cada vez mais pessoas tem me procurado devido ansiedade, com a sensação de que as diferentes áreas da vida estão “sob risco”, somado a todo desgaste gerado pela necessidade de reorganização das funções ocupacionais. Além disso, pessoas ansiosas tendem a planejar os passos e as ações, prever cada possível problema que pode surgir em cada situação, com a sensação de que assim estarão seguras e sob controle da situação. E adivinha? Nesse momento, isso também está “suspenso”. Então, esse “lugar comum e familiar” que estamos acostumados a ir também não está disponível para nós, podendo intensificar nosso sofrimento com a ansiedade. A parte boa é que ao mesmo tempo estamos começando a realmente olhar para nossa saúde mental como algo importante de ser cuidado e cultivado. E temos refletido sobre ações de fortalecimento emocional, manejo e acolhimento de sintomas psíquicos que provocam desconforto (como tristeza, raiva e euforia) e que podem levar a comportamentos reativos (brigas, uso de substâncias, alimentação compulsiva, etc.). Todas essas coisas sempre foram muito negligenciadas em nossa cultura, e dependendo do grau até mesmo estigmatizadas. Existem estudos que mostram que por causa desse estigma, pessoas com depressão chegavam a levar em média 10 anos para procurar ajuda. Ou seja, 10 anos sofrendo com os sintomas sem procurar recursos de cuidado. E a parte melhor ainda: estamos avançando muito bem em recursos e inovações de atenção à saúde mental/emocional/psíquica (como queira chamar). Hoje em dia é possível encontrar muitas alternativas para que as pessoas possam ter uma vida mais plena, com maior senso de propósito, conexão e felicidade. Não só para quem realmente possui de fato um desses quadros e precisa de um tratamento mais especializado, mas também para pessoas que simplesmente querem aprofundar em seu autoconhecimento e manejar melhor as situações do dia a dia. Avançamos tanto que hoje conseguimos até fazer estudos científicos que trazem dados sobre o impacto disso para a saúde física e desempenho ocupacional. Não mais como um “achismo”, não mais como algo secundário que “se der tempo eu olho para isso”. Mas como algo essencial para que todo o resto possa acontecer. Não é à toa que muitas empresas hoje procuram profissionais baseando-se em soft skills. Pensando em tudo isso, desenvolvemos a Semana para Redução da Ansiedade! Uma série de encontros diários gratuitos com especialistas de diferentes áreas, promovendo conversas de qualidade, abertas e acolhedoras sobre ansiedade. É a nossa forma de oferecer ferramentas de cuidado, recursos para desenvolver novas formas de encontrar equilíbrio e calma. Desenvolver o potencial humano que já tem em cada um de nós, mas diante de tantas coisas acabamos não reconhecendo e não cultivando. Queria contar também que, pessoalmente, essa Semana também tem um significado especial para mim. É o nascimento de uma sementinha que plantamos três anos atrás e hoje começou a brotar: o lançamento do Instituto Plenativamente de Promoção à Saúde. Um Instituto dedicado a oferecer cuidados para a saúde, especialmente relacionado ao fortalecimento emocional e saúde mental. Acreditamos no ser humano integral, único e com grande potencial para encontrar sua própria jornada em direção ao autoconhecimento, transformação e cura, para se desenvolver plenamente. Estaremos juntos, te acompanhando nessa jornada, quem sabe até apontando algumas direções e oferecendo algumas ferramentas. A Semana para Redução da Ansiedade é só o começo! Esperamos que goste, e seja muito bem vindo nessa nova jornada! Saiba mais e se inscreva: Semana da Redução da Ansiedade - de 18 a 24 de Julho de 2020.

Sobre o Amor e seus paradoxos

Sobre o Amor e seus paradoxos

Série "Pílulas de Atenção Plena" Neste post, vamos aprofundar sobre uma emoção que muito buscamos em nossas vidas, e paradoxalmente nos afastamos. Você já parou para explorar como sente o amor? É muito curioso como muitas emoções podem surgir a partir do amor. Para nomear algumas, podemos falar em alegria, afeto, vergonha, confusão, serenidade, tristeza, gratidão… O amor também tem muitas faces, muitas formas de expressar, de sentir… Será que conseguimos sentir genuinamente o amor, ou será que permanecemos apenas com essas outras emoções e sensações, confundindo com o amor? Mais curioso ainda é o quanto falar disso sem cair no “piegas”, “músicas de sofrência” ou etc., é estranho para nossa cultura. Até mesmo as atitudes que tanto cultivamos em mindfulness e que, ao meu ver, possuem uma base importante no amor (como gentileza e aceitação), ou mesmo a habilidade de autocompaixão, são estranhas à nossa cultura. Sim, somos acostumados a ver frases do tipo “gentileza gera gentileza”, “seja gentil no trânsito”, ou coisas do gênero. Mas frequentemente não cultivamos essa atitude no dia a dia. Ela também vem acompanhada de certos julgamentos morais e importantes amarras, bloqueios que muitas vezes sequer entendemos o motivo. Eu, particularmente, acho difícil falar sobre gentileza e não falar sobre afeto, amor e as sensações que gera. Sabe, aquele senso de carinho, de cuidado, aquele calorzinho no coração, aquele quentinho no peito que sentimos quando queremos o bem… mas queremos de verdade, como se todo o nosso corpo vivenciasse isso, vibrasse isso, de forma genuína. É muito comum observar nos grupos que atendo, por exemplo, que ao convidar as pessoas a explorar e cultivar o amor, elas também associarem com vulnerabilidades e barreiras. Paradoxalmente, se analisarmos bem, buscamos o amor em quase todas as nossas ações do dia a dia. Acho que muito disso acontece devido a algo bem humano, e que também é origem de muitos sofrimentos: o apego, a avidez. Amamos algo. Nos apegamos. Sentimos e gostamos da sensação. Nos apegamos novamente. Queremos mais. E nos recusamos a perceber a impermanência, aqui nesse caso principalmente dos momentos vividos que geram a emoção de amor, mas no fundo sabemos que está lá. Então, nos sentimos vulneráveis e nos fechamos para essa emoção. E assim, acabamos nos privando de sentir algo tão maravilhoso, tão verdadeiramente humano, e tão potente. Podemos ir além. Podemos nos distrair em uma tentativa de não sentir, de não reconhecer essa busca em nossas vidas. Buscamos refúgios, buscamos as mais variadas alternativas. Também podemos “terceirizar” o amor, colocar sempre em uma fonte externa, e nunca interna. Mas, enquanto nos mantivermos fechados, sequer conseguimos perceber que o amor não é dividido e sim compartilhado... o que quero dizer com isso é que quando sentimos amor, isso não é subtraído de uma “fonte esgotável” mas pelo contrário! Quanto mais sentido e mais compartilhado, mais ele se multiplica. E embora a gente saiba disso, e não tenha nenhuma novidade no que estou dizendo, ainda assim pautamos nossa relação com o amor como se ele fosse se esgotar. Uma vez li de um mestre que, na verdade, nós seres humanos ainda estamos longe de descobrir e viver o amor em sua plenitude. Desconhecemos sua origem, sua forma, sua potência. Quanto mais pratico, quanto mais me permito sentir, mais percebo que isso nunca fez tanto sentido. O que na verdade me deixa bem maravilhada! Então, quero deixar um convite para você... Observe, como se relaciona com o amor? O que te gera amor? Quanto se dedica a cultivar de verdade essa emoção em suas mais variadas formas? Quanto de suas ações são pautadas na relação que construiu com o amor? Se quiser, podemos fazer um exercício...Tente se lembrar de alguma coisa que gera essa sensação em você. Em geral pode ser uma criança, um filhotinho de um animal, uma planta, até mesmo uma divindade se isso também despertar esse senso em você. Não importa. Vai mentalizando, trazendo a imagem dessa pessoa ou ser. E se permitindo despertar em si o senso de amor fraterno, de cuidado, de querer bem. Como você sente isso? Onde você sente isso? Explore por alguns instantes, tente ser curioso e aberto! Muito bem, como foi essa experiência? Caso tenha percebido alguma barreira, não se preocupe, é perfeitamente normal. Apenas se permita e deixe estar. E mantenha esse exercício com leveza, dia após dia, com a intenção de um dia - e no seu próprio tempo – ser possível se liberar das amarras que fecham o seu coração. E quem sabe, aos pouquinhos, se dê a oportunidade saborear o amor mesmo nas situações mais simples, como em um sorriso, uma conversa amiga, um abraço, uma beleza singela da natureza, em um pôr-do-sol... E uma coisa eu te garanto, com todas as alegrias e tristezas, desafios e oportunidades que temos, estar e ser humano vai ganhar um novo significado!

Ouvindo e Habitando o Corpo - 7 passos

Ouvindo e Habitando o Corpo - 7 passos

Série "Pílulas de Atenção Plena" Descubra como cultivar a conexão, cuidado e gratidão com o corpo em 7 passos. Você deixa seu corpo se comunicar com você? Experimente parar por alguns instantes, e sinta. O que está presente nesse instante? Ele pede algum cuidado, algum movimento? Muitas vezes, vivemos tão imersos em nossos pensamentos que pouco sentimos nosso corpo. Pouco habitamos o nosso corpo. Nos relacionamos com o nosso corpo como se ele fosse um mero veículo de transporte que carrega a “preciosa mente” - que fica na cabeça - com seus pensamentos para interagir com o mundo. Lembramos de olhar para nosso corpo quando ele dói ou incomoda, muitas vezes para reclamar. Padrões culturais de estética não ajudam em nada nesse sentido, e podemos atribuir ao nosso corpo cargas emocionais ainda mais pesadas. Mas o corpo é muito mais do que isso, e desenvolver essa percepção tem ajudado as pessoas a viverem uma vida mais equilibrada e saudável. Inclusive, tem algumas tradições que consideram que a mente não é restrita à cabeça, mas sim que habita todo o corpo. Todo o corpo tem entrada sensorial, tem uma riqueza própria, tem sabedoria própria. O corpo é fonte de muitos dos prazeres que buscamos na vida, mas se estamos desconectados, como podemos estar abertos a sentir o que ele tem para nos oferecer? Quando sente alegria, por exemplo, onde sente? E amor? E tristeza? Quando algo não te faz bem, quando algo parece que não está certo ou que não deveria seguir em determinada direção, onde sente? Acredite, o corpo nos dá muito mais dicas do que imagina. E então, meu convite aqui é para que, pelo menos por alguns instantes, você comece a ouvir seu corpo. Comece a escutar sua sabedoria, se permita aprender com ele. Veja se é possível começar a estabelecer uma nova relação com ele. E o mais importante, aprenda a conhecer e respeitar seus limites. Por incrível que pareça, isso é exatamente uma das maiores dificuldades que as pessoas que atendo tem, seja no consultório ou nas sessões de mindfulness. Vivemos tão desconectados no dia a dia que mal sabemos nomear as sensações. Mal sabemos o que olhar ao tentar se abrir para sentir o corpo, e facilmente caímos na cilada de querer que o corpo sinta algo diferente do que está presente naquele instante. As sensações são as mais variadas. Podem ser confortáveis, desconfortáveis ou neutras (quando não sentimos sensação em determinado ponto). Podem ser coceira, formigamento, pontada, queimação, toque ou contato, pressão, temperatura, tensão ou relaxamento... E às vezes, o cuidado que podemos oferecer pode ser tão simples quanto se levantar e esticar um pouquinho. Tomar água. Ir ao banheiro. Girar a cabeça. Dar uma respiração mais profunda. Alongar brevemente alguma parte do corpo. Escolha um, vá com calma e pegue leve com você mesmo! E por fim, uma outra atitude muito importante de começar a cultivar nessa relação com o corpo é a gratidão. Isso mesmo. Gratidão. Com todas as falhas e dificuldades que ele pode ter, ele é SEU corpo. Ele ainda te permite muitas coisas, mesmo que com imensas restrições em vários casos. Ele ainda tem muita vida contida. Ele é um universo inteiro, um templo. E se olhar atentamente, vai descobrir que além da dor, ele também tem o conforto e o recurso que precisa para lidar com a dor. E se ainda for muito difícil, comece com o simples, siga esses passos, eles não precisam durar mais do que alguns minutos: 1) Pare. 2) Se abra, sinta. Deixe sua atenção se voltar para o corpo. 3) Tem alguma sensação presente? 4) Acolha. Pode até falar mentalmente algo como “eu te sinto, eu estou aqui com você”. 5) Se faça a seguinte pergunta: tem algum cuidado ou movimento que pode oferecer nesse estante? 6) Ofereça esse cuidado 7) Reconheça que dedicou esses instantes para si mesmo, se possível fale mentalmente “muito obrigada” Se desafie! Experimente fazer isso alguns dias e veja o que acontece!

Você tem um minuto?

Você tem um minuto?

Série "Pílulas de Atenção Plena" Descubra como vivenciar plenamente a simplicidade de um minuto pode oferecer uma sentido de maior propósito e conexão em sua vida! Aliás, vamos melhorar essa pergunta... como você quer estar presente exatamente neste minuto? Um simples minuto permite muitas coisas, e se estivermos abertos, disponíveis para vivenciá-lo, quantas oportunidades de sentir a vida pulsar poderemos ter? Saborear alimentos, sentir movimentos sutis do corpo ou mesmo escolher se movimentar, sentindo cada músculo contraindo e relaxando. Sentir a respiração. Sentir uma conversa, um abraço, um até logo. Simplesmente ser por um minuto! Escolher com qual intenção quer vivenciar exatamente este um minuto também significa decisões que passamos a ter em nossas vidas, saindo do automático e desenvolvendo o senso de autonomia. Você pode escolher de que forma quer vivenciar este minuto, qual ação quer ter nesse um minuto, qual a intenção por trás dessa ação neste um minuto. E aqui vale uma reflexão muito importante: quão conectado com seus propósitos, suas buscas de vida, este um minuto está? Outra coisa legal é que podemos escolher com qual atitude queremos passar este minuto. Por exemplo, posso escolher ser gentil no próximo minuto, ter paciência, ter gratidão... Posso brincar de observar minha mente e os pensamentos com curiosidade, aprender a soltar desses pensamentos com paciência, soltar de algumas amarras e, por que não, de algumas teimosias? Quão generoso ou generosa quero estar nesse minuto? E veja, não preciso nem me esforçar em fazer isso por um dia inteiro ou uma vida inteira, apenas por este minuto é suficiente! E aí, observe como se sente ao fazer isso. Ao oferecer sua presença plena para este um minuto, daqui a pouco outro, e então mais um... devagarzinho começam a acontecer algumas mudanças interessantes, muitas vezes sem nem percebermos. O que muitas pessoas me contam é que a vida começa a ter um brilho diferente, começam a ter maior senso de conexão e propósito, e isto está intimamente relacionado com bem-estar. Cada vez sentem menos que estão “apenas fazendo a roda do rato girar”, mesmo quando este um minuto pode ser bem desafiador. Claro, as práticas de meditação mindfulness ajudam muito nesse processo. Oferecem um “campo de treinamento” para que possamos cultivar esse estado de maior presença, de acolher o momento presente com essas atitudes que comentamos. E quanto mais praticamos, mais temos possibilidades de vivenciar a riqueza que este um minuto oferece. E então, qual sua intenção para esse próximo minuto?

Você consegue ouvir esse som?

Você consegue ouvir esse som?

Série "Pílulas de Atenção Plena" Descubra como ouvir uma música com curiosidade e abertura ajuda a trazer um estado de maior presença e conexão em seu dia a dia! De que maneira você escuta uma música? Ou melhor, de que maneira você está atento enquanto escuta uma música? Este pode ser uma ação bem automática. Deixamos uma música de pano de fundo enquanto fazemos outras coisas, como faxinar a casa, trabalhar, nos deslocar. De vez em quando viramos até cantores, no trânsito ou no banho então nem se fala!! Mas e que tal experimentar estar realmente atento enquanto escuta? Experimentar apenas ouvir, sentir a música, reconhecer cada um dos instrumentos que a compõem? Você não precisa ser um músico para fazer isso. Sequer precisa conhecer o nome dos instrumentos. Mas reconhecer a sutileza de cada som, seu ritmo, suas características... Sabe, fazer isso requer um ajuste fino de nosso foco de atenção, uma abertura para reconhecer as nuances de um som, uma curiosidade genuína a cada instante em que ouvimos cada nota musical. Este ajuste fino não é algo tão simples de fazer, requer um treino mesmo. Experimente! Ao ouvir uma música, procure abrir mão do que já conhece dela. Procure trazer uma qualidade de curiosidade e abertura, como se nunca tivesse ouvido ela antes. E apenas sinta! Sinta como chega ao seu ouvido. Sinta sua textura, timbre, volume. Reconheça as pausas que estão presentes, dando toda a singularidade ao som. E então, comece a esmiuçar cada instrumento que escuda: é agudo, é grave? É contínuo? É pontual? Intermitente? Como identifica que é de um determinado instrumento, o que faz pensar que é a bateria ou a guitarra, por exemplo? Aprendemos a desenvolver essa habilidade com mindfulness durante a meditação, mas não apenas nesta hora. Trazer essa habilidade para nosso dia a dia, reconhecer em cada instante a oportunidade de exercitar a atenção plena naquilo que estamos fazendo, é um grande passo para começar a desenvolver equilíbrio e bem-estar em nossas vidas. Treinando com os sons, por exemplo, começamos a aplicar essa nova forma de ser em nossas vidas, aberto e curioso para reconhecer as sutilezas, os detalhes de cada experiência. Treinar realmente a oferecer nossa presença para aquilo que estamos vivendo no momento presente, mesmo que seja algo tão automático (e ao mesmo tempo tão presente nas nossas vidas) quanto ouvir música. Se desafie, faça esse treino de forma lúdica mesmo! Uma única música, ou ainda, um único minuto de uma música, já oferece uma grande oportunidade de praticar isto!

Você já saboreou sua refeição hoje?

Você já saboreou sua refeição hoje?

Série "Pílulas de Atenção Plena" O que a alimentação diz sobre você mesmo? Como você se relaciona com sua alimentação? Em geral, as pessoas possuem maneiras bem interessantes de se relacionar com a comida. Enquanto algumas pessoas enxergam como algo necessário para a sobrevivência mas um entrave na sua rotina (ter que pensar no que comer, todo o tempo gasto em mercado, preparo, limpeza da cozinha, ter que parar o que está fazendo para se alimentar...), outras vão para o extremo oposto, em que alimentação assume um papel de grande importância e cuidado não só consigo como também de sua família (planejar, providenciar e preparar é um prazeroso ritual!). Outras ainda ficam no meio do caminho, nem tanto céu e nem tanto terra. Há também pessoas que desenvolvem uma relação de amor e ódio com a comida, ou que se utilizam dos alimentos como forma de distrair, manejar emoções e sensações desconfortáveis. A verdade é que a maneira com que comemos diz muito sobre como somos em nossas vidas, e inclusive de como interagimos socialmente. Você já tinha parado para refletir sobre isso? Antes, comer era um ato que atendia nossas necessidades culturais de prazer e estreitamento dos laços sociais. Mas aos poucos nossa sociedade passou a ser cada vez mais centrada em trabalho, em rapidez e agilidade, e a alimentação vista apenas como um momento de repor os nutrientes do corpo. Quantas e quantas pessoas que participaram dos meus grupos de mindfulness começaram a perceber que chegavam ao final do dia sem nem se lembrar do que tinham comido? Ou pior, se deram conta de quem não tinham almoçado! Quando foi a última vez que realmente sentiu, apreciou o que estava comendo? Sem pressa, com atenção, com abertura? Realmente percebeu o que estava colocando em seu prato, qual quantidade estava colocando em seu prato, qual o seu grau de fome ao montar seu prato? E quando não gosta de um alimento, será que realmente brincou com a curiosidade para compreender o porquê não gosta, e não apenas sua mente te dizer que não gosta e nem se abrir para essa possibilidade? E aí pensamos... que outras coisas sua mente “já sabe que vai ser assim” e nem dá espaço para se abrir para “como de fato vai ser”? Sabe, uma das coisas que mudou depois que comecei a meditar foi justamente perceber que muito do que achava que não gostava na verdade achava uma delícia! Aumentei muito meu repertório alimentar, que naturalmente se direcionou para coisas mais saudáveis. Já com outros alimentos chega a ser divertido experimentar se naquele instante eu vou gostar, mas, se de fato não gosto, meu corpo reage com contração ou com uma sensação ruim na boca. Esse é meu sinal. E o seu? Outra parte legal com isso é ir deixando a própria sabedoria do corpo fluir, se permitir atender suas reais necessidades com a alimentação. Se alimentar é de fato um grande cuidado que temos com nós mesmos. E podemos ir além, podemos refletir sobre outras formas de nos nutrir, não apenas nosso corpo como também nossa mente e espírito. Nesse sentido, uma autora muito legal chamada Andrea Liberstein, em seu livro Well Nourished descreve 8 corpos que devem ser cuidados para nosso senso de autorrealização: corpo físico, corpo emocional, corpo psicológico, corpo social, corpo intelectual, corpo criativo, corpo espiritual e nutrição do mundo. Mas... voltemos para um primeiro passo! Que tal simplesmente se permitir saborear sua próxima refeição? Referência livro: Liberstein, A. Well Nourished – Mindful practices to heal your relationship with food, feed your whole self, and end overeating. Fair Winds, 2017.